quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A oportunidade perdida das presidenciais de 2011

As eleições presidenciais são já no próximo dia 23 de Janeiro, mas o ambiente que se encontra na população não faz adivinhar uma mobilização que vá orgulhar o candidato que venha a ser eleito. O mandato presidencial de Cavaco serviu, antes de mais, para demonstrar como a configuração do regime semi-presidencial e o cargo do presidente da república serviu pouco para mobilizar a esperança em Portugal. Este mandado presidencial, apesar das evidentes limitações do cargo político, tornou evidente uma incapacidade de usar a legitimidade do sufrágio universal para servir os interesses nacionais. A excessiva importância do peso institucional do cargo interpretada por um silêncio providencial conjugada com uma muito contida manifestação do que se pensa, fez do mandato de Cavaco Silva num dos mais frustrantes da história da democracia portuguesa.
Os debates entre os candidatos colocaram a nu as fragilidades do sistema político português e a importância da presidência em situações de crise. São nestas situações que surgem os grandes líderes carismáticos, porque são nos momentos de dificuldades que as oportunidades para discutir as ideias que façam o país caminhar para o progresso e a mobilização das energias fazem mais sentido. Não é com um silêncio comprometido e resignado que se desperta a esperança do país!
O presidente e candidato Cavaco Silva, obedecendo à sua estratégia amedrontada e sem rasgo para arriscar, só demonstra a fraqueza do seu espírito que lembra o país tímido, ordeiro, pobre e orgulhosamente só que Portugal rejeitou em Abril de 1974.
A situação política actual mostra um Portugal doente que tem as instituições da república desacreditadas. A crise financeira é o álibi de que o “rei vai nu” e que a verdadeira crise é da falência do regime e decadência dos políticos que governam (ou deixam governar, no caso do presidente) para servir alguns e sobrecarregar a maioria dos portugueses.

domingo, 12 de dezembro de 2010

A coragem política Portuguesa

A agenda política semanal foi marcada pelo anúncio do Governo Regional dos Açores de pretender compensar a redução salarial dos funcionários públicos regionais, com salários entre 1500 € e 2000 €, através duma “remuneração compensatória” que anulará as perdas decretadas.
O Governo da República, através do Primeiro-Ministro e outras figuras relevantes, já fez saber que discorda da medida anunciada, mas também afirmou não dispor de meios legais para fazer anular a decisão, demonstrando a fraqueza do governo e mostrando ao país que os sacrifícios não são iguais para todos os Portugueses.
Este governo que decidiu, controversamente, cobrar impostos de forma retroactiva, através do IRS, alegando a urgência da situação nacional para a assumpção dessas medidas, é o mesmo que se confessa incompetente em fazer aplicar, de forma solidária e igualitária entre os Portugueses, os sacrifícios anunciados.
Este é também o governo que se arroga de possuir a coragem de tomar medidas impopulares, motivada pela exigência do interesse patriótico, mas que mostra, avanços e recuos, na decisão de aplicar redução salarial às elites políticas que ocupam lugares nas empresas públicas ou na eliminação da acumulação de rendimentos pagos pelo erário público provenientes da ocupação de cargos públicos, reformas e outras remunerações.
A par das posições do Governo, encontramos no principal partido da oposição o silêncio comprometedor ou a concordância com a “coragem política” das medidas tomadas, demonstrando que o PSD pouco diferente faria, ou irá fazer, quando tiver a oportunidade de voltar a governar Portugal.
A severidade da crise que se instalou em Portugal e um pouco por toda a Europa, serviu para pôr em evidência a urgência de rever as funções do estado e da sua dimensão, mas para se conseguir uma reforma bem sucedida de todo o “edifício público” é necessário, antes de mais, realizar uma verdadeira reforma político-administrativa que tem de alterar a organização dos órgãos de representação para conseguir restaurar a confiança entre os eleitos e os eleitores. O problema actual, mais do que um problema de finanças públicas é, fundamentalmente um problema político que só terá solução mediante a reconstrução da administração pública que obedeça aos interesses da transparência e faça desaparecer a influência nociva que os partidos políticos têm tido na tentativa de se construir um Estado mais preocupado em servir todos em detrimento de servir algumas elites.

domingo, 28 de novembro de 2010

Um outro País

Nos dias 27 e 28 de Novembro, o Banco Alimentar contra a fome promoveu, como já é habitual, a recolha de alimentos junto de mais de mil centros comerciais com a ajuda de cerca de trinta mil voluntários.
O movimento do Banco Alimentar tem demonstrado que os Portugueses, ao contrário do que se quer fazer acreditar, são mobilizáveis para causas genuínas e desinteressadas.
As experiências do passado têm comprovado que o espírito de solidariedade nacional é sensível à gravidade das situações e recentemente com a catástrofe Madeirense foi possível, novamente, comprovar a natureza desse espírito solidário.
Estas experiências repartidas e localizadas permitem ter esperança no futuro e na capacidade de consciencialização dos cidadãos, contrariando todos os que menosprezam essas capacidades.
É evidente que existe, em alguns sectores da sociedade, o interesse de fazer acreditar que em Portugal não é possível a criação de verdadeiros movimentos de cidadania que despertem as consciências e façam acreditar que cada um dos Portugueses pode, e deve, tomar o futuro nas próprias mãos.
Os partidos políticos, apesar sua inegável importância, continuam reféns dos seus próprios pecados e da tentação de quererem ter a exclusividade da acção na sociedade civil.
O agudizar das carências sociais que têm sido impostas aos Portugueses podem conduzir o país para uma explosão social com efeitos imprevisíveis e quem acredita que o “povo é sereno” e incapaz de mobilizar-se, deveria olhar mais atentamente para os fenómenos como o do Banco Alimentar que vão acontecendo um pouco por todo o país e que só contrariam essa ideia.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O valor da credibilidade

As votações finais do Orçamento de Estado para 2011 (OE 2011) revelaram a verdadeira natureza da “coragem” do governo e dos que o suporta no parlamento. Depois do debate efervescente, de vários dias, acompanhado pelos meios de comunicação social em torno das medidas de austeridade adoptadas, eis que surge, na recta final e às portas da votação do OE 2011 a alteração (proposta pelo PS e com a abstenção do PSD) que facilitará discricionariamente a eliminação da redução dos salários nas empresas públicas.
É comummente sabido que a “excepção serve para confirmar a regra”, mas a alteração de última hora a e respectiva votação apenas confirmou que tanto o PS como o PSD não são parte da solução do descontrolo das contas públicas, porque o compromisso de ambos é com as clientelas partidárias em detrimento do interesse nacional.
Além disso, as reacções do presidente do PSD – Pedro Passos Coelho –, presidente da Câmara Municipal do Porto – Rui Rio –, eurodeputado – Paulo Rangel – e outras figuras relevantes do partido, serviram para revelar os diferentes partidos do PSD: uma parte parece estar ansiosa para suceder ao PS apenas para tomar o decadente poder do Estado; outros, mais conscientes da realidade, parecem entender que está em causa a soberania nacional e que é o tempo de acabar com a “festa” e disciplinar os “pandegueiros”, useiros e vezeiros do erário público, para que o Portugal dos “brandos costumes” não se transforme numa “bomba” social que explodirá, inevitavelmente, pelo rastilho da inconsciência dos políticos que se servem do país.

domingo, 21 de novembro de 2010

O crescimento editorial e a sobrevivência do livro

António de Spínola, em “Portugal e o Futuro”, afirmava: “verifica-se hoje uma verdadeira inflação editorial. Publica-se tudo. E as técnicas comerciais de aumento de produção e expansão de mercados assenhorearam-se por completo do sector, inundando com publicidade os meios de comunicação, impondo o livro ao comprador como se artigo de consumo se tratasse, e saturando as almas com doses de literatura em quantidade que supera a capacidade de leitura do público dos nossos dias”. Decorria o mês de Março de 1974 e a revolução de Abril estava já em contagem decrescente.
Em quase quarenta anos o mundo alterou-se radicalmente. Surgiram novas formas de comunicação e melhoram-se as que já existiam. A internet permitiu satisfazer a divulgação individual de tudo o que se desejasse, mas nem por isso o fluxo editorial tradicional diminuiu. Hoje publica-se, verdadeiramente, de tudo, e nem a inabilidade da escrita arredou a ascensão de autores pelo punho dum qualquer ghost-writer que lhes contornou a incapacidade. O livro deixou de ser apenas um produto cultural para se tornar numa forma de notoriedade social, afirmando-se, muito mais, como artigo de consumo.
Apesar dos dados estatísticos não permitirem deduzir categoricamente a proporção do crescimento dos títulos desde o ano de 1974, as informações que existem recolhidas nos últimos dez anos (série cronológica de dados entre 2000 e 2009) permitem concluir que a tendência foi de crescimento editorial. O número de títulos registados, no âmbito de depósito legal, naquele período cresceu cerca de 20% (passou de 14 066 para 17 015 títulos registados, entre 2000 e 2009, conforme dados recolhidos na Prodata – Base de dados Portugal Contemporâneo).
A possibilidade da edição digital, facilitada pela evolução tecnológica e democratizada no acesso, colocou em debate o futuro das edições em papel distribuídas pelos canais tradicionais das editoras e livrarias. Muitos vaticinam o desaparecimento do livro como suporte de divulgação de conhecimento e entretenimento, mas não parece fácil que tal vá acontecer em breve.
É mais provável que os suportes digitais se tornem obsoletos, por efeito da evolução tecnológica, do que o livro desapareça em favor dos documentos digitais. Além disso, apesar das vantagens de armazenamento e transporte que os novos meios disponibilizam, ainda não é possível com um Ipad, Kindle, Sony PRS ou outro qualquer dispositivo que exista ou venha a existir, seja portátil e adequado em qualquer situação. Por exemplo, só com os livros é que se pode desfrutar da leitura em locais com intensa luz, como junto da praia, porque os leitores digitais ainda não evitam o efeito do reflexo da luz nos monitores que impede a leitura. A sensação física da manipulação dum livro, que permite anotações e uma maior facilidade de manipulação ainda não é comparável pelo recurso dos meios electrónicos.
Existem vantagens e desvantagens de parte a parte: os livros apresentam vantagens que os leitores digitais ainda não conseguem alcançar e vice-versa. Parece mais plausível que estes dois suportes de informação ainda terão de coexistir por muitos e longos anos porque complementam-se muito mais do que se excluem.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Portugal e o futuro

Em 1415, no dia 22 de Agosto, Portugal, pela mão de D. João I e acompanhado pelos príncipes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, conquistava Ceuta e dava início ao período mais glorioso da sua História. O domínio da praça africana iria permitir controlar a rota comercial que fazia circular bens valiosos como eram as especiarias, o ouro, pedras preciosas, etc., além de que, nas imediações da cidade, era abundante o cultivo de trigo que sempre fora deficitário em Portugal.
Depois de conquistada a cidade de Ceuta por Portugal, os circuitos comerciais que a ela afluíam foram alterados pelos muçulmanos e, rapidamente, a cidade tornou-se num problema por ser mais um “sorvedouro de gente e dinheiro” do que um rentável entreposto comercial.
O mais importante na tomada de Ceuta não foi os benefícios que trouxe para a nação, mas porque marcou o início duma estratégia para o crescimento do país: Portugal sempre esteve “encurralado” entre o mar e Castela, impedindo-o de “alargar os horizontes” territoriais para a nobreza e o clero e, a partir de certa altura, alargar também os mercados ambicionados pela classe social emergente da Burguesia. A expansão marítima do século XV foi uma audácia para um país com aquela dimensão, mas ensinou que o mais importante é possuir uma estratégia de futuro e ter a coragem de aventurar-se na sua demanda.
Hoje, falta a Portugal um impulso estratégico. Passados quase seiscentos anos desde a conquista de Ceuta, falta recuperar a vontade de saber procurar novos mercados. O mundo está em mudança, a correlação de forças entre as nações transformou-se rapidamente nos últimos vinte anos: o final da “guerra fria” bipolar que repartia a influência entre dois blocos – Estados Unidos da América e União Soviética – cedeu o lugar a um mundo multipolar, onde ganharam destaque países tão distintos como a China, o Brasil, a Índia, a Rússia, etc.
As novas potências emergentes surgiram como uma ameaça, mas também se constituirão uma oportunidade! O desenvolvimento económico daqueles países formará, a médio prazo, um mercado apetecível para todo o tipo de produtos que não sejam capazes de produzir e que possuam uma identidade própria. No passado recente, cedemos à facilidade de aceitar trocar a nossa identidade agrícola e industrial em troca de contra-partidas financeiras legadas pela União Europeia. A crise que se sente já não nos permite iludir as facilidades do acesso ao crédito de outros tempos. Vai ser indispensável, para ultrapassar as dificuldades, ter de regressar à produção agrícola e industrial para compensar o enorme desequilibro da balança comercial e reduzir, desta maneira, a dependência externa.
Esta não é a altura para ceder ao desânimo, mas o momento para encarar o futuro com a perspectiva que é possível inverter a crise e fazer renascer uma nação chamada Portugal que tem novecentos anos de História com momentos grandiosos e ruinosos que sempre foram ultrapassados. Este é o momento de encarado a situação actual como uma oportunidade de fazer um país melhor: com uma estratégica partilhada por cada Português que deseja responder às suas responsabilidades cívicas. É o momento de libertar o país das “ervas daninhas” que corromperam e impediram que o engenho nacional florescesse para beneficiar alguns poucos interesses privados que nunca estiveram interessados no bem desta nação ancestral, mas apenas nos seus mesquinhos interesses conquistados à custa da usurpação do esforço dos Portugueses.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Uma república sem republicanos

Ao fim de cem anos da implantação da república falta aprendermos a ser republicanos!
O cidadão comum desconhece a essência do ser-se republicano; não é capaz de diferenciar os interesses privados dos públicos; demite-se de participar civicamente nas actividades que o envolvam a si e à sua família na sociedade; despreza os recursos do erário público por ignorância ou desconhecimento de que tudo o que se obtêm da República é resultado do contributo de todos; etc.
Os eleitos para os diversos órgãos de soberania ignoram as exigências que devem à República; desprezam a obrigação de decidirem em transparência no cumprimento do mandato que lhes foi confiado pela democracia; recusam clarificar as intenções do que desejam realizar no cumprimento do mandato que lhe foi confiado e em representação da República; esquecem o dever de informar e de partilhar as decisões que tomam no exercício do poder público que obriga a respeitar o interesse de todos em detrimento do privado; desrespeitam e lesam o erário público ao decidirem investimentos que hipotecam as gerações futuras, esquecendo o princípio de solidariedade inter-geracional; etc.
Nesta República, sem republicanos, não existem inocentes inimputáveis, mas existe uma oligarquia desligada da realidade colectiva que deveria ser a sua própria realidade, porque o mandato democrático não se resume ao sufrágio, de quatro em quatro anos, duma opção eleitoral, mas antes deveria ser um compromisso de proximidade e solidariedade entre eleitores e eleitos.
A classe dirigente que se preocupa em reduzir o número de escolas, serviços médicos, e outras funções essenciais que compõem as funções públicas do estado e esquece-se de tomar medidas para simplificar e melhorar a eficácia da organização do estado porque essas medidas colocarão em causa certos grupos de interesse que parasitam em torno dos dinheiros públicos não é um directório republicano. A verdadeira classe política republicana é a que escolhe o caminho de melhorar as condições de soberania do estado na procura por melhores e eficazes serviços públicos e é corajosa quando afronta os interesses privados que capturam o futuro de Portugal; é a que consegue oferecer igualdade de oportunidades aos que procuram assistência médica, social e de engrandecimento cultural; consegue transformar as desigualdades sociais em motivos que conduzem à solidariedade que permite o acesso à educação dos cidadãos, em igualdade de oportunidades, e desejam uma cidadania esclarecida e participativa; etc.
Daqui a cem anos, comemorar-se-á novo centenário da República Portuguesa, mas será que nessa altura já teremos republicanos e uma verdadeira República? Só com uma consciência dos valores da República se podem gerar republicanos e fazer-se cumprir o regime político.

sábado, 14 de agosto de 2010

Um país improvável

Há 625 anos, em 14 de Agosto, Portugal decidia o seu futuro como nação numa batalha desigual contra Castela. A orientação militar do Condestável, D. Nuno Alvares Pereira, genuíno herói-santo Português, conduziu o reino de D. João, Mestre de Avis, à vitória que assegurou a independência duma nação improvável cobiçada pela tentação hegemónica da super-potência de Castela.
Ao longo de quase 900 anos, a existência de Portugal viveu, muitas vezes no “fio da navalha”. Primeiro foi a forma imprevisível como nasceu Portugal, mas que resultou da inteligência corajosa do líder, D. Afonso Henriques, que usou mais a diplomacia e a estratégia do que a força da conquista para conseguir impor a sua ambição independentista, mas paradoxalmente foi o “Conquistador” que lhe serviu de cognome. Depois, na crise de 1383 a 1385, os interesses populares subjugaram as ambições das elites da nobreza e do clero e o país permaneceu independente e abriu-se para o Atlântico que alargou as fronteiras da fé e do território. Finalmente, em 1640 conseguiu restaurar a identidade, com o regresso da liderança aos Portuguesas e o abandono do domínio Castelhano. Ao longo de quase deste 900 anos de existência sobrepôs-se sempre a identidade Portuguesa ao domínio provável Castelhano, que sempre sonhou com uma união ibérica.
Os desafios actuais não são menores dos ultrapassados ao longo dos últimos séculos: a independência está mais em causa do que nunca, mas desta vez não é pelo combate visível das armas que tem de ser defendida, mas através da capacidade de saber usar os recursos do país para servir os Portugueses e garantir a independência relativamente aos credores estrangeiros.
O país tem a salvação no território; na cultura estruturada pela língua, costumes, monumentos e História; nos Portugueses. Basta-nos aprender a usar o território como fonte produtiva e aproveitar a especificidade do clima que concede uma agricultura diferenciada e elevar o potencial construído pela História, singularidade da cultura e costumes.
Todos os ingredientes para o sucesso, como no passado estão já estão ao dispor, basta aventurarmo-nos na confecção criativa desses ingredientes; deixar a criatividade funcionar e exigir às elites que nos “governam” liberdade para a iniciativa e rigor na gestão dos interesses de Portugal e dos Portugueses. A tolerância deve existir apenas na diversidade das ideias que engordam a seiva do progresso para que a exigência da utilização dos recursos de todos no interesse de todos seja o desígnio nacional.

sábado, 7 de agosto de 2010

No país dos “efes”

Iniciou a época futebolística com a habitual disputa da super-taça, com partida entre os rivais F.C. Porto e S.L. Benfica.
Apesar de o país já levar 36 anos de democracia e a ditadura do Estado Novo ser um fantasma que paira, por vezes, na consciência da nação, muito perdurou no tempo para fazer da epígrafe, “país dos três efes”, uma descrição actual para quem quer ser europeu e com vocação atlântica.
O fado, outro dos “efes”, assumiu-se como a expressão identitária, com futuro assegurado pela diversidade de novos intérpretes e que procura tornar-se património da humanidade da UNESCO. Nos anos seguintes à revolução de Abril de 1974, passou por um período de degradação devido à proximidade que tinha ao regime ditatorial de Salazar e Caetano, mas actualmente demonstra uma vivacidade que ultrapassa as fronteiras nacionais com vozes como Marisa, Ana Moura e outras, reconhecidas no estrangeiro e no espectro da “world music”.
O culto mariano de Fátima, nem justifica comentários! A visita papal de Maio passado é a expressão da importância do fenómeno para a Igreja e os Portugueses.
Acabou a partida! Desta vez saiu vencedor o F.C. Porto, comprovando a impressão dum campeonato nacional melhor disputado entre os principais intervenientes. A escolha de Vilas-Boas parece ter trazido o equilibro que a época transacta não permitiu assegurar entre o Benfica, de Jesus, e o Porto, de Jesualdo.
A inexistência de motivos de animação do país que mostra indicadores económicos medíocres que obrigaram a medidas de austeridade, compensa-se no refúgio aficionado do bairrismo futebolístico.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Uma semana em cheio

A ambicionada sexta-feira chegou para o contentamento dos que ainda não estão de férias. No fim-de-semana poderão ser esquecidas as peripécias duma semana marcadas pelas declarações do Procurador-geral da República que desabafou sentir-se como a Rainha de Inglaterra, provocando a explosão da polémica relativamente à qualidade da justiça Portuguesa. Tornando a discussão sobre o funcionamento da justiça um dos principais temas que irão aquecer o debate da reentré politica do pós-férias.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Um país festivaleiro no verão

Os dias são luminosos e aquecem o interior e mais principalmente a costa que se estende de lés-a-lés: é verão! Nesta temporada a agenda do país é marcada por todo o tipo de festas que se possa imaginar. Alguns dizem que Portugal é um país de festivais, atendendo à quantidade e à qualidade dos programas que se vão realizando, um pouco, por toda a parte e são, a cada ano que passa, cada vez mais.
Um pouco por todos os recantos do país, e muitas vezes nos locais mais improváveis, vão surgindo os festivais portugueses que já têm identidade própria pelo tipo de oferta musical que dispõem, porque a paisagem, na sua maioria, é caracterizada por um espaço de acampamento junto dum curso de água, que completa o envolvente musical com a sensação de liberdade que os dias de calor e de verão fazem apetecer.
Este ano já tivemos a presença de Prince no “Super-bock Super rock”, que deve ter sido um dos momentos mais altos no espectro musical. Durante os próximos dias teremos um dos maiores dos festivais, pelo menos em termos organizativos e de duração, a acontecer na Herdade da Casa Branca na Azambujeira do Mar. No programa deste ano sobressai a presença de Jamirquai, Mika, Massive Attack, entre outros. Mas para aqueles que procuram sonoridades menos comerciais sugere-se que estejam atentos à prestação de Beirut.
Enquanto as noites não arrefecem, aproveite-se o calor que torra as sensações e faz apetecer viajar na noite, se possível encoberto por uma boa banda sonora!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O milagre hertziano

No dia 1 de Agosto de 1935, em pleno fulgor do Estado Novo de Salazar era fundada a emissora nacional. Iniciava uma nova era para a divulgação informativa e de propaganda do regime musculado que pretendia controlar o acesso à informação dos Portugueses e ter a última palavra no entretenimento da população.
A efeméride será assinalada pelo canal dois de televisão, que existe para a felicidade dos que querem fugir ao sem-sabor dos programas despojados dos condimentos que alegram os sentidos e engrandecem a alma. Na rubrica “Cinco noites, cinco filmes” serão repostas algumas das películas que melhor conseguiram transmitir a magia das emissões radiofónicas, com títulos exemplificativos como “Os dias da rádio”, “A menina da rádio”, “Os bastidores da rádio”, “Volume no máximo” e “Bom dia Vietname”. Só é de lamentar que as sessões se iniciem tardiamente, a horas onde o vigília e o sonho se confundem como o próprio conteúdo dos filmes em exibição.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O poder educativo da televisão

Nos últimos dias, para honrar a memória de António Feio e concretizar a merecida homenagem, muito se escreveu e relatou sobre as suas virtudes profissionais como actor e encenador. Relembrou-se a genialidade do humor inteligente das “conversas da treta” que tanto animaram o público e marcaram uma nova forma de fazer teatro de comédia, em parceria com José Pedro Gomes, tornando-se numa dupla de referência na representação Portuguesa.
Pessoalmente, relembro a sua voz inconfundível nas dobragens das séries infantis do princípio dos anos oitenta, que deu vida a personagens das “Fábulas da floresta verde”, “Alice no país das maravilhas”, “Willy Fog”, “Babar” entre outras. Relembro a qualidade das dobragens que se executavam naqueles tempos; as bandas sonoras com os nossos músicos, onde Jorge Palma e Sérgio Godinho eram presenças habituais. Mas principalmente, recordo o conteúdo dessas séries e a qualidade educativa associada ao lazer dos mais novos, prestando verdadeiramente um serviço público de referência.
Actualmente, com a generalização dos jogos electrónicos em consolas como a Xbox ou a PlayStation, os desenhos animados e outras séries infantis e juvenis tornaram-se em combates brutais perpetrados em ambientes exóticos imaginados como realidade de outras galáxias. A cultura duma tolerância endiabrada como a encontrada, por exemplo, nas “Aventuras de Tom Sawyer”, deu lugar a um espectáculo de sucessivos combates e violência que recordo ver, mais recentemente, em séries como “Dragon Ball”. A lógica de concorrência entre os canais generalistas de televisão conduziu a que tantos os canais privados como os públicos, se sujeitassem a uma lógica de captação de audiências sem se preocuparem com os conteúdos e a especificidade do público infantil e juvenil, na sua permissivo e ormação como futuros cidadãos responsáveis e conscientes.
É hora de, uma vez por todas, a televisão pública assumir as responsabilidades educativas como canal lúdico mas também didacta do povo Português e no caso, por exemplo, dos programas infantis e juvenis tornar-se mais criterioso na selecção dos programas e deixar para os canais privados a concorrência desenfreada pelas audiências.

domingo, 1 de agosto de 2010

Um Estado incoerente

O ministério da saúde anunciou que vai permitir aos centros de saúde e hospitais contratar médicos aposentados para tentar colmatar a falta de pessoal médico, especialmente nas urgências. As condições definidas para a contratação deste pessoal imprescindível aos serviços de saúde, para que não entrem em rotura foram: os médicos que se aposentaram na idade legal poderão ter um acréscimo de 30% ao vencimento da reforma se retomarem ao serviço, enquanto que os que anteciparam a reforma irão auferir apenas o vencimento normal em substituição do valor da aposentação: parece evidente que com as condições propostas pelo ministério da saúde serão poucos, ou mesmo nenhuns, os médicos que estarão dispostos a regressar ao desempenho de funções no sistema nacional de saúde (SNS).
É de estranhar que os dirigentes do país apresentem estas propostas para colmatar uma situação de carência de médicos do SNS, quando as medidas parecem evidenciar o insucesso para a resolução do problema. Além disso, é publicamente conhecido que existem no país muito dirigentes em cargos públicos que se encontram aposentados e que acumulam os vencimentos inerentes aos cargos com os da aposentadoria.
É reconhecido que existe uma crise económica que só é comparável à da Grande Depressão dos anos trinta do século passado; as soluções propostas, quer pelo governo, quer pelos principais partidos da oposição, visam a redução das prestações sociais, nomeadamente do subsídio de desemprego, rendimento social de inserção, abono de família, etc., e o aumento generalizado dos impostos conciliado com o congelamento dos salários dos funcionários públicos.
O povo Português, face às dificuldades que se têm anunciado mostrou a maturidade de aceitar os sacrifícios sem conflitos na rua nem manifestações efusivas, mas também exprimiu-se descontente porque o esforço da recuperação financeira do país não é distribuído de forma equitativa por todos, fazendo notar uma sensação de descrédito, nunca sentida, relativamente aos governantes do país.
Paira no ar a sensação generalizada que destes governantes já nada ou pouco se pode esperar. Este sentimento é o prenúncio de uma bomba relógio que poderá explodir numa tensão social de forma imprevisível!
Os nossos dirigentes, quer os que estão em exercício, quer os que espreitam uma oportunidade para voltarem ao poder, deveriam tomar medidas vigorosas para restaurarem, antes de mais, a credibilidade que já há muito perderam e que cada vez é menor, sendo a oportunidade criada pelo ambiente desta crise o momento oportuno.
Bastava assumir a coragem de assumir algumas medidas para que a credibilidade pudesse ser recuperada, em parte ou totalmente, e para isso só se teria de se impor a todos os Português a possibilidade de auferir apenas um único rendimento (derivado de funções profissionais ou outras) proveniente do erário público, acabando com a acumulação imoral de salários de cargos públicos com o de aposentações que resultaram tantas vezes do exercício desses mesmos cargos; limitar os valores gastos em salários e ordenados de tantos gestores públicos de hospitais, institutos, fundações, etc. que proliferam pelo país; reduzir o número de institutos e fundações através da fusão entre eles ou da extinção de tantos outros; promover a reforma administrativa do país para que se congregassem juntas de freguesia e câmaras municipais e que a revisão do sistema eleitoral conduzisse aos eleitos de cargos públicos, nomeadamente, os deputados da assembleia da república, serem mais dependentes dos eleitores e não tanto dos partidos políticos. Outras tantas propostas poderíamos aqui enunciar, mas para inicio de conversa consideram-se as apresentadas suficientes.
Em suma, bastava que quem tivesse a honraria de ser escolhido para os cargos dirigentes do país fosse coerente nas suas decisões e deixasse de preocupar-se com os interesses privados e se concentrasse nos interesses públicos que jurou defender no início do desempenho das suas responsabilidades públicas.

sábado, 26 de junho de 2010

Saramago: escritor de intervenção

Com o desaparecimento físico de José Saramago, muito se escreveu e outro tanto se comentou a respeito da oportunidade criada pela efeméride. Uns optaram por enaltecer a obra do escritor que mereceu o prémio Nobel; outros escolheram reafirmar o seu ódio ao “atrevimento” das ideias do autor em torno de certas “vacas sagradas” da teologia cristã e da doutrina política vigente. A controvérsia cultivada em vida não se esgotou no momento da sua morte, o que deveria ter agradado muito ao visado, porque a sua intervenção pública foi sempre centrada num pronunciamento do seu pensamento, quer através do conteúdo dos seus livros, quer pelos seus comentários a respeito dos mais diversos temas da actualidade.
Saramago foi capaz de criar uma literatura pejada duma estética original através de fórmulas inovadoras de contar uma história: enquadrava no conteúdo intemporal dos temas parábolas e metáforas de grande simplicidade e sabedoria popular. A par do conteúdo da escrita, reformulou a pontuação com o intuito da literatura se aproximar da oralidade, para dar voz aos que nunca são escutados. A pretensão humanista do escritor concretizou-se plenamente tanto pelo conteúdo como pela forma da sua redacção.
O intervencionismo da literatura de Saramago pretendeu recuperar a ideia de outros tempos baseada no princípio de que a “canção era uma arma” e tudo servia para o combate ideológico-política, contrariando a tendência geral das intervenções artísticas pela literatura, música, cinema, teatro, etc., que se demitiram dessa função e pensavam a Arte como mera diversão onde não cabiam as preocupações sobre as questões da humanidade. José Saramago veio recuperar essa preocupação reformulando, no entanto, o processo de equacionar dessas reflexões e que construíram uma escrita excepcional duma genialidade universal e permanente actual.
A hipótese duma epidemia generalizada pela cegueira demonstrou a fragilidade da humanidade; a possibilidade democrática da generalização do “voto em branco” questionou a legitimidade dos eleitos que representam o colectivo; a ausência da morte num mundo construído sobre a necessidade de permanente renovação; estas e outras parábolas inventadas pelo universo “saramaguista” foram as fórmulas encontradas para elevar o debate sobre alguns dos temas que permanecem irresolúveis pela humanidade, e que provavelmente nunca terão solução, mas que ficaram consagrados para reflexão, actual e futura, como toda a obra do Nobel Português.
O legado deste escritor, que está ladeado pelos maiores de Portugal como Fernando Pessoa, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett, Miguel Torga, entre outros, contribuiu para uma melhor caracterização e reflexão sobre a sociedade Portuguesa – nas suas virtudes e nos seus defeitos – mas que fizeram da pequenez geográfica do país o ponto de partida para uma universalidade lusitana que se encontra dispersa pelo mundo.