António de Spínola, em “Portugal e o Futuro”, afirmava: “verifica-se hoje uma verdadeira inflação editorial. Publica-se tudo. E as técnicas comerciais de aumento de produção e expansão de mercados assenhorearam-se por completo do sector, inundando com publicidade os meios de comunicação, impondo o livro ao comprador como se artigo de consumo se tratasse, e saturando as almas com doses de literatura em quantidade que supera a capacidade de leitura do público dos nossos dias”. Decorria o mês de Março de 1974 e a revolução de Abril estava já em contagem decrescente.
Em quase quarenta anos o mundo alterou-se radicalmente. Surgiram novas formas de comunicação e melhoram-se as que já existiam. A internet permitiu satisfazer a divulgação individual de tudo o que se desejasse, mas nem por isso o fluxo editorial tradicional diminuiu. Hoje publica-se, verdadeiramente, de tudo, e nem a inabilidade da escrita arredou a ascensão de autores pelo punho dum qualquer ghost-writer que lhes contornou a incapacidade. O livro deixou de ser apenas um produto cultural para se tornar numa forma de notoriedade social, afirmando-se, muito mais, como artigo de consumo.
Apesar dos dados estatísticos não permitirem deduzir categoricamente a proporção do crescimento dos títulos desde o ano de 1974, as informações que existem recolhidas nos últimos dez anos (série cronológica de dados entre 2000 e 2009) permitem concluir que a tendência foi de crescimento editorial. O número de títulos registados, no âmbito de depósito legal, naquele período cresceu cerca de 20% (passou de 14 066 para 17 015 títulos registados, entre 2000 e 2009, conforme dados recolhidos na Prodata – Base de dados Portugal Contemporâneo).
A possibilidade da edição digital, facilitada pela evolução tecnológica e democratizada no acesso, colocou em debate o futuro das edições em papel distribuídas pelos canais tradicionais das editoras e livrarias. Muitos vaticinam o desaparecimento do livro como suporte de divulgação de conhecimento e entretenimento, mas não parece fácil que tal vá acontecer em breve.
É mais provável que os suportes digitais se tornem obsoletos, por efeito da evolução tecnológica, do que o livro desapareça em favor dos documentos digitais. Além disso, apesar das vantagens de armazenamento e transporte que os novos meios disponibilizam, ainda não é possível com um Ipad, Kindle, Sony PRS ou outro qualquer dispositivo que exista ou venha a existir, seja portátil e adequado em qualquer situação. Por exemplo, só com os livros é que se pode desfrutar da leitura em locais com intensa luz, como junto da praia, porque os leitores digitais ainda não evitam o efeito do reflexo da luz nos monitores que impede a leitura. A sensação física da manipulação dum livro, que permite anotações e uma maior facilidade de manipulação ainda não é comparável pelo recurso dos meios electrónicos.
Existem vantagens e desvantagens de parte a parte: os livros apresentam vantagens que os leitores digitais ainda não conseguem alcançar e vice-versa. Parece mais plausível que estes dois suportes de informação ainda terão de coexistir por muitos e longos anos porque complementam-se muito mais do que se excluem.
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