sábado, 12 de fevereiro de 2011

A incerteza do futuro e o esquecimento do passado

Na passada sexta-feira, depois de dezoito dias ininterruptos de manifestações e protestos nas ruas do Cairo, o presidente Mubarak abdicou do cargo e entregou os destinos do país aos militares. O dia onze de Fevereiro de 2011 tornou-se no primeiro do resto das vidas dos Egípcios para alcançar a democracia. A partir de agora, aguardam-se muitas mudanças e a única certeza que aquele povo tem é que nada do que virá a acontecer no país será igual ao que até aqui perdurou.
A revolta, convocada pela internet a partir do facebook e twitter, iniciou-se na Tunísia e alastrou ao Egipto. Agora ameaça toda uma região de países com regimes “musculados” tutelados pelo Ocidente numa região estratégica para o mundo civilizado.
O ano de 2011 iniciou com um clima de incerteza herdado dum ano onde o “Euro” foi ameaçado a par do endividamento comprometedor de muito dos países que o constituem. Aparentemente sem motivos evidentes, surgiu no médio oriente, numa explosão de mudança, a geração dos jovens “deserdados” da perspectiva de emprego e futuro. O ano que parecia querer mostrar mais fundo o desânimo e a ausência de esperança, rebenta com a detonação dos mais jovens, num desígnio de mudança que faz acreditar num futuro melhor conduzido pelas novas gerações.
Em Portugal foi notícia da semana a descoberta duma idosa que estava desaparecida (e morta) dentro do seu apartamento há nove anos! Durante quase uma década, num bairro populoso da periferia de Lisboa a PSP e GNR ignoraram todas as chamadas de alerta de vizinhos e alguns familiares. A administração pública, tão diligente em cobrar impostos e outros tributos dos cidadãos, considerou normal alguém não reclamar o valor da sua aposentadoria, nem ter liquidado os impostos devidos e outras responsabilidades ao ponto de provocar o arresto dos bens, nomeadamente o apartamento.
Esta história é uma chamada de atenção para a situação de isolamento que muitos cidadãos vivem, principalmente as pessoas mais idosas. Alerta que não basta existir um “estado social” que garante algum rendimento aos nossos “seniores”, e que é importante que saibamos dignificar estes cidadãos com o carinho e a valorização da sua existência na recta final da vida, além de os não sujeitar ao abandono e ao esquecimento.
Um povo vale mais quando oferece uma perspectiva de futuro às gerações emergentes e é capaz de dignificar aqueles que garantam a memória desse povo. Parece que tanto numa como noutra situação ainda existe muito a fazer, e que só seremos uma sociedade melhor quando as gerações activas começarem a preocupar-se com as gerações vindouras e passadas.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Viagem a Portugal

No início dos anos oitenta do século passado, aquando da comemoração do décimo aniversário do “Circulo de Leitores”, José Saramago foi convidado para percorrer o país e transformar essa experiência num conjunto de relatos compilados em livro. O desafio foi aceite e o resultado foi a “Viagem a Portugal”. No final de 2010 o “Circulo de Leitores”, invocando a memória do autor recentemente desaparecido, decidiu reeditar essa viagem longínqua ao país já quase esquecido, mas recordado pela identidade que nunca abandona o lugar que lhe dá a essência.
Em quase quatrocentas páginas o autor descreve os encontros com os monumentos e os rostos que vão aparecendo. Não perde a oportunidade de oferecer as impressões sobre a arquitectura que marca os lugares e as pessoas que lhes dão vida. Relata o percurso pelos caminhos que avivam as memórias da história e justificam aquela escolha em detrimento doutra qualquer. Não esquece a paisagem que impede a possibilidade de termos outras igrejas, castelos, mosteiros, palácios, etc. E faz das planícies, planaltos e montanhas o desenho do território nacional moldado pela natureza e pela vontade dos homens que foram fertilizando a terra com a sua força.
Na vontade de relatar o país existiram outras bem sucedidas experiências. Lembrem-se dos relatos do exílio do penúltimo presidente da primeira república, Manuel Teixeira Gomes, conhecido por presidente-escritor que descreveu as suas viagens em Portugal no livro “Reencontros”. Miguel Torga, nos anos cinquenta do século vinte, também descreveu filosoficamente as diferenças territoriais de clima e topografia do país, traduzidos numa publicação exemplar denominada “Portugal”.
Nesta “Viagem a Portugal” encontramos um Saramago que ainda não tinha escrito o “Memorial do Convento” e provavelmente nem imaginava ser autor duma obra polémica como o “Evangelho segundo Jesus Cristo”. Esta obra apresenta-se com textos marcados por uma aura poética que estão longe do registo azedo de obras posteriores. Mostra um autor marcado por uma identidade cultural europeia, onde as tradições judaico-cristãs são umas das principais referências. É um livro de leitura saboreada, quer pela forma que apresenta o conteúdo, quer pela erudição que revela.
As histórias divulgadas nesta obra mostram um Portugal que está longe das cidades; revela as tradições que passam entre gerações, mas arriscam-se desaparecer na desertificação de muitas aldeias, principalmente do interior. Esta é a viagem que testemunha uma outra, mais longa, que vem desde o início da nacionalidade (ou mesmo antes) e traz agarrada a herança do que é Portugal: um país que faz o que só nele se sabe fazer!
Esta é a viagem que nos faz acreditar no futuro, porque mostra a longevidade da sobrevivência da memória; capaz de revelar a solução do desânimo destes tempos difíceis, onde a cultura e as tradições são os motores que produzem o que só se pode produzir em português, e faz desejar palmilhar os caminhos perdidos, de Concelhos e Freguesias, à procura daquilo que esteve sempre ali à espera de ser colhido e valorizado.
Esta “Viagem a Portugal” é a testemunha ocular que ensina que Portugal é único e vale a pena!