sábado, 14 de agosto de 2010

Um país improvável

Há 625 anos, em 14 de Agosto, Portugal decidia o seu futuro como nação numa batalha desigual contra Castela. A orientação militar do Condestável, D. Nuno Alvares Pereira, genuíno herói-santo Português, conduziu o reino de D. João, Mestre de Avis, à vitória que assegurou a independência duma nação improvável cobiçada pela tentação hegemónica da super-potência de Castela.
Ao longo de quase 900 anos, a existência de Portugal viveu, muitas vezes no “fio da navalha”. Primeiro foi a forma imprevisível como nasceu Portugal, mas que resultou da inteligência corajosa do líder, D. Afonso Henriques, que usou mais a diplomacia e a estratégia do que a força da conquista para conseguir impor a sua ambição independentista, mas paradoxalmente foi o “Conquistador” que lhe serviu de cognome. Depois, na crise de 1383 a 1385, os interesses populares subjugaram as ambições das elites da nobreza e do clero e o país permaneceu independente e abriu-se para o Atlântico que alargou as fronteiras da fé e do território. Finalmente, em 1640 conseguiu restaurar a identidade, com o regresso da liderança aos Portuguesas e o abandono do domínio Castelhano. Ao longo de quase deste 900 anos de existência sobrepôs-se sempre a identidade Portuguesa ao domínio provável Castelhano, que sempre sonhou com uma união ibérica.
Os desafios actuais não são menores dos ultrapassados ao longo dos últimos séculos: a independência está mais em causa do que nunca, mas desta vez não é pelo combate visível das armas que tem de ser defendida, mas através da capacidade de saber usar os recursos do país para servir os Portugueses e garantir a independência relativamente aos credores estrangeiros.
O país tem a salvação no território; na cultura estruturada pela língua, costumes, monumentos e História; nos Portugueses. Basta-nos aprender a usar o território como fonte produtiva e aproveitar a especificidade do clima que concede uma agricultura diferenciada e elevar o potencial construído pela História, singularidade da cultura e costumes.
Todos os ingredientes para o sucesso, como no passado estão já estão ao dispor, basta aventurarmo-nos na confecção criativa desses ingredientes; deixar a criatividade funcionar e exigir às elites que nos “governam” liberdade para a iniciativa e rigor na gestão dos interesses de Portugal e dos Portugueses. A tolerância deve existir apenas na diversidade das ideias que engordam a seiva do progresso para que a exigência da utilização dos recursos de todos no interesse de todos seja o desígnio nacional.

sábado, 7 de agosto de 2010

No país dos “efes”

Iniciou a época futebolística com a habitual disputa da super-taça, com partida entre os rivais F.C. Porto e S.L. Benfica.
Apesar de o país já levar 36 anos de democracia e a ditadura do Estado Novo ser um fantasma que paira, por vezes, na consciência da nação, muito perdurou no tempo para fazer da epígrafe, “país dos três efes”, uma descrição actual para quem quer ser europeu e com vocação atlântica.
O fado, outro dos “efes”, assumiu-se como a expressão identitária, com futuro assegurado pela diversidade de novos intérpretes e que procura tornar-se património da humanidade da UNESCO. Nos anos seguintes à revolução de Abril de 1974, passou por um período de degradação devido à proximidade que tinha ao regime ditatorial de Salazar e Caetano, mas actualmente demonstra uma vivacidade que ultrapassa as fronteiras nacionais com vozes como Marisa, Ana Moura e outras, reconhecidas no estrangeiro e no espectro da “world music”.
O culto mariano de Fátima, nem justifica comentários! A visita papal de Maio passado é a expressão da importância do fenómeno para a Igreja e os Portugueses.
Acabou a partida! Desta vez saiu vencedor o F.C. Porto, comprovando a impressão dum campeonato nacional melhor disputado entre os principais intervenientes. A escolha de Vilas-Boas parece ter trazido o equilibro que a época transacta não permitiu assegurar entre o Benfica, de Jesus, e o Porto, de Jesualdo.
A inexistência de motivos de animação do país que mostra indicadores económicos medíocres que obrigaram a medidas de austeridade, compensa-se no refúgio aficionado do bairrismo futebolístico.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Uma semana em cheio

A ambicionada sexta-feira chegou para o contentamento dos que ainda não estão de férias. No fim-de-semana poderão ser esquecidas as peripécias duma semana marcadas pelas declarações do Procurador-geral da República que desabafou sentir-se como a Rainha de Inglaterra, provocando a explosão da polémica relativamente à qualidade da justiça Portuguesa. Tornando a discussão sobre o funcionamento da justiça um dos principais temas que irão aquecer o debate da reentré politica do pós-férias.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Um país festivaleiro no verão

Os dias são luminosos e aquecem o interior e mais principalmente a costa que se estende de lés-a-lés: é verão! Nesta temporada a agenda do país é marcada por todo o tipo de festas que se possa imaginar. Alguns dizem que Portugal é um país de festivais, atendendo à quantidade e à qualidade dos programas que se vão realizando, um pouco, por toda a parte e são, a cada ano que passa, cada vez mais.
Um pouco por todos os recantos do país, e muitas vezes nos locais mais improváveis, vão surgindo os festivais portugueses que já têm identidade própria pelo tipo de oferta musical que dispõem, porque a paisagem, na sua maioria, é caracterizada por um espaço de acampamento junto dum curso de água, que completa o envolvente musical com a sensação de liberdade que os dias de calor e de verão fazem apetecer.
Este ano já tivemos a presença de Prince no “Super-bock Super rock”, que deve ter sido um dos momentos mais altos no espectro musical. Durante os próximos dias teremos um dos maiores dos festivais, pelo menos em termos organizativos e de duração, a acontecer na Herdade da Casa Branca na Azambujeira do Mar. No programa deste ano sobressai a presença de Jamirquai, Mika, Massive Attack, entre outros. Mas para aqueles que procuram sonoridades menos comerciais sugere-se que estejam atentos à prestação de Beirut.
Enquanto as noites não arrefecem, aproveite-se o calor que torra as sensações e faz apetecer viajar na noite, se possível encoberto por uma boa banda sonora!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O milagre hertziano

No dia 1 de Agosto de 1935, em pleno fulgor do Estado Novo de Salazar era fundada a emissora nacional. Iniciava uma nova era para a divulgação informativa e de propaganda do regime musculado que pretendia controlar o acesso à informação dos Portugueses e ter a última palavra no entretenimento da população.
A efeméride será assinalada pelo canal dois de televisão, que existe para a felicidade dos que querem fugir ao sem-sabor dos programas despojados dos condimentos que alegram os sentidos e engrandecem a alma. Na rubrica “Cinco noites, cinco filmes” serão repostas algumas das películas que melhor conseguiram transmitir a magia das emissões radiofónicas, com títulos exemplificativos como “Os dias da rádio”, “A menina da rádio”, “Os bastidores da rádio”, “Volume no máximo” e “Bom dia Vietname”. Só é de lamentar que as sessões se iniciem tardiamente, a horas onde o vigília e o sonho se confundem como o próprio conteúdo dos filmes em exibição.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O poder educativo da televisão

Nos últimos dias, para honrar a memória de António Feio e concretizar a merecida homenagem, muito se escreveu e relatou sobre as suas virtudes profissionais como actor e encenador. Relembrou-se a genialidade do humor inteligente das “conversas da treta” que tanto animaram o público e marcaram uma nova forma de fazer teatro de comédia, em parceria com José Pedro Gomes, tornando-se numa dupla de referência na representação Portuguesa.
Pessoalmente, relembro a sua voz inconfundível nas dobragens das séries infantis do princípio dos anos oitenta, que deu vida a personagens das “Fábulas da floresta verde”, “Alice no país das maravilhas”, “Willy Fog”, “Babar” entre outras. Relembro a qualidade das dobragens que se executavam naqueles tempos; as bandas sonoras com os nossos músicos, onde Jorge Palma e Sérgio Godinho eram presenças habituais. Mas principalmente, recordo o conteúdo dessas séries e a qualidade educativa associada ao lazer dos mais novos, prestando verdadeiramente um serviço público de referência.
Actualmente, com a generalização dos jogos electrónicos em consolas como a Xbox ou a PlayStation, os desenhos animados e outras séries infantis e juvenis tornaram-se em combates brutais perpetrados em ambientes exóticos imaginados como realidade de outras galáxias. A cultura duma tolerância endiabrada como a encontrada, por exemplo, nas “Aventuras de Tom Sawyer”, deu lugar a um espectáculo de sucessivos combates e violência que recordo ver, mais recentemente, em séries como “Dragon Ball”. A lógica de concorrência entre os canais generalistas de televisão conduziu a que tantos os canais privados como os públicos, se sujeitassem a uma lógica de captação de audiências sem se preocuparem com os conteúdos e a especificidade do público infantil e juvenil, na sua permissivo e ormação como futuros cidadãos responsáveis e conscientes.
É hora de, uma vez por todas, a televisão pública assumir as responsabilidades educativas como canal lúdico mas também didacta do povo Português e no caso, por exemplo, dos programas infantis e juvenis tornar-se mais criterioso na selecção dos programas e deixar para os canais privados a concorrência desenfreada pelas audiências.

domingo, 1 de agosto de 2010

Um Estado incoerente

O ministério da saúde anunciou que vai permitir aos centros de saúde e hospitais contratar médicos aposentados para tentar colmatar a falta de pessoal médico, especialmente nas urgências. As condições definidas para a contratação deste pessoal imprescindível aos serviços de saúde, para que não entrem em rotura foram: os médicos que se aposentaram na idade legal poderão ter um acréscimo de 30% ao vencimento da reforma se retomarem ao serviço, enquanto que os que anteciparam a reforma irão auferir apenas o vencimento normal em substituição do valor da aposentação: parece evidente que com as condições propostas pelo ministério da saúde serão poucos, ou mesmo nenhuns, os médicos que estarão dispostos a regressar ao desempenho de funções no sistema nacional de saúde (SNS).
É de estranhar que os dirigentes do país apresentem estas propostas para colmatar uma situação de carência de médicos do SNS, quando as medidas parecem evidenciar o insucesso para a resolução do problema. Além disso, é publicamente conhecido que existem no país muito dirigentes em cargos públicos que se encontram aposentados e que acumulam os vencimentos inerentes aos cargos com os da aposentadoria.
É reconhecido que existe uma crise económica que só é comparável à da Grande Depressão dos anos trinta do século passado; as soluções propostas, quer pelo governo, quer pelos principais partidos da oposição, visam a redução das prestações sociais, nomeadamente do subsídio de desemprego, rendimento social de inserção, abono de família, etc., e o aumento generalizado dos impostos conciliado com o congelamento dos salários dos funcionários públicos.
O povo Português, face às dificuldades que se têm anunciado mostrou a maturidade de aceitar os sacrifícios sem conflitos na rua nem manifestações efusivas, mas também exprimiu-se descontente porque o esforço da recuperação financeira do país não é distribuído de forma equitativa por todos, fazendo notar uma sensação de descrédito, nunca sentida, relativamente aos governantes do país.
Paira no ar a sensação generalizada que destes governantes já nada ou pouco se pode esperar. Este sentimento é o prenúncio de uma bomba relógio que poderá explodir numa tensão social de forma imprevisível!
Os nossos dirigentes, quer os que estão em exercício, quer os que espreitam uma oportunidade para voltarem ao poder, deveriam tomar medidas vigorosas para restaurarem, antes de mais, a credibilidade que já há muito perderam e que cada vez é menor, sendo a oportunidade criada pelo ambiente desta crise o momento oportuno.
Bastava assumir a coragem de assumir algumas medidas para que a credibilidade pudesse ser recuperada, em parte ou totalmente, e para isso só se teria de se impor a todos os Português a possibilidade de auferir apenas um único rendimento (derivado de funções profissionais ou outras) proveniente do erário público, acabando com a acumulação imoral de salários de cargos públicos com o de aposentações que resultaram tantas vezes do exercício desses mesmos cargos; limitar os valores gastos em salários e ordenados de tantos gestores públicos de hospitais, institutos, fundações, etc. que proliferam pelo país; reduzir o número de institutos e fundações através da fusão entre eles ou da extinção de tantos outros; promover a reforma administrativa do país para que se congregassem juntas de freguesia e câmaras municipais e que a revisão do sistema eleitoral conduzisse aos eleitos de cargos públicos, nomeadamente, os deputados da assembleia da república, serem mais dependentes dos eleitores e não tanto dos partidos políticos. Outras tantas propostas poderíamos aqui enunciar, mas para inicio de conversa consideram-se as apresentadas suficientes.
Em suma, bastava que quem tivesse a honraria de ser escolhido para os cargos dirigentes do país fosse coerente nas suas decisões e deixasse de preocupar-se com os interesses privados e se concentrasse nos interesses públicos que jurou defender no início do desempenho das suas responsabilidades públicas.