Com o desaparecimento físico de José Saramago, muito se escreveu e outro tanto se comentou a respeito da oportunidade criada pela efeméride. Uns optaram por enaltecer a obra do escritor que mereceu o prémio Nobel; outros escolheram reafirmar o seu ódio ao “atrevimento” das ideias do autor em torno de certas “vacas sagradas” da teologia cristã e da doutrina política vigente. A controvérsia cultivada em vida não se esgotou no momento da sua morte, o que deveria ter agradado muito ao visado, porque a sua intervenção pública foi sempre centrada num pronunciamento do seu pensamento, quer através do conteúdo dos seus livros, quer pelos seus comentários a respeito dos mais diversos temas da actualidade.
Saramago foi capaz de criar uma literatura pejada duma estética original através de fórmulas inovadoras de contar uma história: enquadrava no conteúdo intemporal dos temas parábolas e metáforas de grande simplicidade e sabedoria popular. A par do conteúdo da escrita, reformulou a pontuação com o intuito da literatura se aproximar da oralidade, para dar voz aos que nunca são escutados. A pretensão humanista do escritor concretizou-se plenamente tanto pelo conteúdo como pela forma da sua redacção.
O intervencionismo da literatura de Saramago pretendeu recuperar a ideia de outros tempos baseada no princípio de que a “canção era uma arma” e tudo servia para o combate ideológico-política, contrariando a tendência geral das intervenções artísticas pela literatura, música, cinema, teatro, etc., que se demitiram dessa função e pensavam a Arte como mera diversão onde não cabiam as preocupações sobre as questões da humanidade. José Saramago veio recuperar essa preocupação reformulando, no entanto, o processo de equacionar dessas reflexões e que construíram uma escrita excepcional duma genialidade universal e permanente actual.
A hipótese duma epidemia generalizada pela cegueira demonstrou a fragilidade da humanidade; a possibilidade democrática da generalização do “voto em branco” questionou a legitimidade dos eleitos que representam o colectivo; a ausência da morte num mundo construído sobre a necessidade de permanente renovação; estas e outras parábolas inventadas pelo universo “saramaguista” foram as fórmulas encontradas para elevar o debate sobre alguns dos temas que permanecem irresolúveis pela humanidade, e que provavelmente nunca terão solução, mas que ficaram consagrados para reflexão, actual e futura, como toda a obra do Nobel Português.
O legado deste escritor, que está ladeado pelos maiores de Portugal como Fernando Pessoa, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett, Miguel Torga, entre outros, contribuiu para uma melhor caracterização e reflexão sobre a sociedade Portuguesa – nas suas virtudes e nos seus defeitos – mas que fizeram da pequenez geográfica do país o ponto de partida para uma universalidade lusitana que se encontra dispersa pelo mundo.