terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Star is born! (Nasceu uma estrela!)

Há coincidências! Afinal a escritora Margarida Rebelo Pinto não tinha razão! Nasceu uma estrela! E não se trata do novo filme que o consagrado Clint Eastwood pretende realizar para apresentar em 2012 ao público e que terá a atriz-cantora Beyoncé como protagonista da terceira versão da longa-metragem do clássico “a star is born!” (nasceu uma estrela!). Apesar da cinefilia que persegue o autor do texto não é sobre cinema que recairá a análise deste artigo, mas sobre as últimas eleições presidenciais do passado dia 23 de Janeiro.
No passado domingo, contrariando todas as expectativas que a campanha eleitoral tinha criado, o acto eleitoral permitiu o nascimento duma estrela! Não uma estrela de teatro ou artes de palco igual à do filme, mas antes uma estrela das artes políticas.
Cavaco Silva, acabou por sair vitorioso nestas eleições com um resultado previsível e pouco surpreendente. Alcançou a vitória na primeira volta do acto eleitoral com uma perda de 500 mil votos em comparação a 2001.
Manuel Alegre foi o derrotado da eleição. Não foi capaz de adiar o desfecho eleitoral numa segunda volta, nem conseguiu “segurar” o milhão de votos de 2001, ultrapassando ligeiramente os 800 mil votos desta vez.
Nestas eleições, os factos relevantes foram as manifestações de protesto expressas em voto. Fernando Nobre conseguiu amealhar mais de 500 mil votos de descontentes com a democrácia actual, acabando por funcionar como o “Alegre do Alegre” graças ao discurso anti-politico de que se serviu na campanha e valeu-lhe a confiança da maioria dos descontentes com os políticos-profissionais que dominam as instituições públicas portuguesas. O número dos votos nulos e brancos alcançou a fasquia dos 200 mil, que é inédito na história das eleições portuguesas. Mas o mais surpreendente foi o resultado do candidato Manuel Coelho que atingiu um resultado de cerca de 250 mil votos, onde 50 mil foram obtidos no círculo eleitoral da Madeira valendo-lhe ali o segundo lugar, logo atrás de Cavaco Silva. Este acontecimento configura-se como algo extraordinário que permite afirmar que nasceu uma estrela na política portuguesa!
Os resultados destas eleições deviam preocupar os políticos que ocupam lugares de relevo e que têm a possibilidade de alterar o sistema eleitoral e político-constitucional de Portugal. O volume de descontentes tem crescido avassaladoramente e nestas eleições tiveram, sem contabilizar com a abstenção, cerca dum milhão de votos. É o nítido descontentamento com o que se discute na política e como o sistema democrático funciona e representa o povo. Só assim se entende que 200 mil eleitores se tenham dado ao trabalho de se dirigirem às urnas para votarem nulo ou branco. É sintomático dum enorme descontentamento e deveria servir como sinal de alerta!
Outro dado importante que estas eleições mostraram é que qualquer candidatura que se diga anti-política e que hostilize a classe política instituída tem fortes possibilidades de conseguir uma aderência considerável dos eleitores. Esta evidência deveria chamar a atenção de quem nos governa e dos partidos que têm assento na assembleia da república, porque a partir de agora não vão faltar populistas à procura da sua oportunidade para conseguirem uma eleição.
As condições de fragilidade a que se chegou são terreno propício para se cultivar extremismos e anti-corpos à política, sendo que muito do que está a acontecer agora traz à lembrança os tempos que fizeram florescer os regimes ditatoriais dos anos trinta do século XX.
O fim das ideologias e do combate ideológico que serviu à hegemonia do pensamento político oferecido pela “queda do muro” pode trazer a explosão social que muitos danos podem provocar à civilização democrática ocidental. Quem supôs que o “fim da história” culminaria com o domínio do capitalismo como ideologia política e económica, engana-se! A sustentabilidade do estado social pode ser a sustentabilidade da democracia e nenhuma ganância irracional resolverá este problema! A ganância da oligarquia política que comanda a Europa vai-se tornar a sua desgraça se não começar a pensar na salvação da Europa que renasceu do pós-guerra dos anos quarenta em vez de a tentar destruir!

domingo, 16 de janeiro de 2011

A cidadania nas Presidenciais

Fernando Nobre é provavelmente o único amador político nestas eleições presidenciais. Não tem “máquina” de campanha que busque figurantes para encher o cenário que será divulgado nas notícias da televisão. Não usa as manhas e artimanhas do discurso para preencher o enredo das coberturas para televisões e para jornais. E não se preocupa em dizer o que todos os políticos profissionais sabem dizer para assediar os eleitores.
Na política Portuguesa há discursos para eleitores e discursos para contribuintes. Mas esqueceu-se o fundamental e mais importante: o discurso para os cidadãos!
Há alguns dias, encontrei alguém cansado do discurso da cidadania, como se ele existisse em Portugal! Neste país encontra-se, e muito, o discurso para o eleitor composto pelas palavras da cidadania. É um discurso efémero preenchido pelo entusiasmo próprio das campanhas eleitorais. Depois de encerradas as urnas, o discurso doce para o eleitor transforma-se imediatamente no sabor amargo do vinagre que se dá ao contribuinte.
O pensamento da cidadania só será real quando se confundirem as palavras dadas ao eleitor com as acções escolhidas para o contribuinte. Nesse dia seremos verdadeiramente uma democracia!

sábado, 15 de janeiro de 2011

A lógica das Presidenciais

A campanha eleitoral para a eleição do Presidente da República atingiu metade do caminho. Depois de uma semana cumprida pelas seis candidaturas, os discursos radicalizam-se por todos.
A entrada na última semana de campanha vai fazer que os discursos de extremem por todos os candidatos, mas já é notório que apenas metade das candidaturas entrou na disputa eleitoral para concorrer à presidência. O candidato-presidente: Cavaco Silva, Manuel Alegre e Fernando Nobre, parecem ser os únicos que concorrem para disputar directamente a presidência da república. As candidaturas de Defensor Moura, Francisco Lopes e Manuel Coelho, cada uma à sua maneira, entraram nesta disputa eleitoral para ganharem visibilidade e marcarem posição para futuros combates políticos.
A candidatura de Defensor Moura parece querer marcar uma posição para que na futura organização administrativa do país que inclua a existência das regiões administrativas possa levar algum avanço de vantagem relativamente a putativos candidatos às diferentes presidências regionais. O candidato apoiado pelo Partido Comunista Português, Francisco Lopes, parece estar a servir como barómetro de medida à receptividade do militante comunista como futuro secretário-geral do partido. O Manuel Coelho está empenhado no combate ao presidente regional da Madeira, Alberto João Jardim. Toda a candidatura parece ter sido desenhada para contribuir para a afirmação paulatina desta figura no contexto político daquela região.
O contraste do mandato presidencial de Cavaco Silva com o conteúdo da sua campanha, composta por algumas críticas às políticas do governo parece vaticinar que, caso exista a reeleição, o confronto entre Governo e Presidência será inevitável. Muito provavelmente tudo será igual ao primeiro mandato! Cavaco Silva entende o desempenho do Presidente da República como um código de silêncio onde o pensamento do Presidente deve ser omisso; as mensagens públicas devem dizer o que os Portugueses desejam ouvir, mas sem se comprometer numa clareza e transparência que a legitimidade do sufrágio universal da sua eleição obrigava a assumir. Esta é a interpretação das funções presidenciais que Cavaco Silva entende da Constituição.
Até ao final da campanha ouviremos discursos exaltados a afrontarem a postura do Governo e das suas políticas de austeridade. Seremos confrontados com ataques ao Orçamento de Estado de 2011 (OE 2011) e a defesa que os sacrifícios poderiam ter sido distribuídos de outra forma. A verdade é que o Presidente da República se comprometeu com as políticas do Governo delineadas no OE 211 e o candidato Manuel Alegre não foi capaz de distanciar-se do partido que sustenta o Governo e o apoia nesta eleição.
Esta eleição Presidencial é o velório do sistema político nascido em Abril de 1974 e a utilização do carro funerário na campanha de Manuel Coelho é a melhor imagem do estado cadavérico das instituições públicas Portuguesas.