Há coincidências! Afinal a escritora Margarida Rebelo Pinto não tinha razão! Nasceu uma estrela! E não se trata do novo filme que o consagrado Clint Eastwood pretende realizar para apresentar em 2012 ao público e que terá a atriz-cantora Beyoncé como protagonista da terceira versão da longa-metragem do clássico “a star is born!” (nasceu uma estrela!). Apesar da cinefilia que persegue o autor do texto não é sobre cinema que recairá a análise deste artigo, mas sobre as últimas eleições presidenciais do passado dia 23 de Janeiro.
No passado domingo, contrariando todas as expectativas que a campanha eleitoral tinha criado, o acto eleitoral permitiu o nascimento duma estrela! Não uma estrela de teatro ou artes de palco igual à do filme, mas antes uma estrela das artes políticas.
Cavaco Silva, acabou por sair vitorioso nestas eleições com um resultado previsível e pouco surpreendente. Alcançou a vitória na primeira volta do acto eleitoral com uma perda de 500 mil votos em comparação a 2001.
Manuel Alegre foi o derrotado da eleição. Não foi capaz de adiar o desfecho eleitoral numa segunda volta, nem conseguiu “segurar” o milhão de votos de 2001, ultrapassando ligeiramente os 800 mil votos desta vez.
Nestas eleições, os factos relevantes foram as manifestações de protesto expressas em voto. Fernando Nobre conseguiu amealhar mais de 500 mil votos de descontentes com a democrácia actual, acabando por funcionar como o “Alegre do Alegre” graças ao discurso anti-politico de que se serviu na campanha e valeu-lhe a confiança da maioria dos descontentes com os políticos-profissionais que dominam as instituições públicas portuguesas. O número dos votos nulos e brancos alcançou a fasquia dos 200 mil, que é inédito na história das eleições portuguesas. Mas o mais surpreendente foi o resultado do candidato Manuel Coelho que atingiu um resultado de cerca de 250 mil votos, onde 50 mil foram obtidos no círculo eleitoral da Madeira valendo-lhe ali o segundo lugar, logo atrás de Cavaco Silva. Este acontecimento configura-se como algo extraordinário que permite afirmar que nasceu uma estrela na política portuguesa!
Os resultados destas eleições deviam preocupar os políticos que ocupam lugares de relevo e que têm a possibilidade de alterar o sistema eleitoral e político-constitucional de Portugal. O volume de descontentes tem crescido avassaladoramente e nestas eleições tiveram, sem contabilizar com a abstenção, cerca dum milhão de votos. É o nítido descontentamento com o que se discute na política e como o sistema democrático funciona e representa o povo. Só assim se entende que 200 mil eleitores se tenham dado ao trabalho de se dirigirem às urnas para votarem nulo ou branco. É sintomático dum enorme descontentamento e deveria servir como sinal de alerta!
Outro dado importante que estas eleições mostraram é que qualquer candidatura que se diga anti-política e que hostilize a classe política instituída tem fortes possibilidades de conseguir uma aderência considerável dos eleitores. Esta evidência deveria chamar a atenção de quem nos governa e dos partidos que têm assento na assembleia da república, porque a partir de agora não vão faltar populistas à procura da sua oportunidade para conseguirem uma eleição.
As condições de fragilidade a que se chegou são terreno propício para se cultivar extremismos e anti-corpos à política, sendo que muito do que está a acontecer agora traz à lembrança os tempos que fizeram florescer os regimes ditatoriais dos anos trinta do século XX.
O fim das ideologias e do combate ideológico que serviu à hegemonia do pensamento político oferecido pela “queda do muro” pode trazer a explosão social que muitos danos podem provocar à civilização democrática ocidental. Quem supôs que o “fim da história” culminaria com o domínio do capitalismo como ideologia política e económica, engana-se! A sustentabilidade do estado social pode ser a sustentabilidade da democracia e nenhuma ganância irracional resolverá este problema! A ganância da oligarquia política que comanda a Europa vai-se tornar a sua desgraça se não começar a pensar na salvação da Europa que renasceu do pós-guerra dos anos quarenta em vez de a tentar destruir!
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